Estenose mitral: etiologia, patogênese, sintomas, diagnóstico e métodos de tratamento.

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Estenose mitral (EM) é um estreitamento patológico do orifício mitral, que leva à dificuldade de enchimento diastólico do ventrículo esquerdo, bem como ao aumento da pressão no átrio esquerdo e no leito pulmonar.

Nos países desenvolvidos, a EM é bem rara e está principalmente associada à febre reumática prévia, enquanto nas regiões em desenvolvimento ela continua sendo uma causa significativa de defeitos valvares. As mulheres são mais propensas a desenvolver a doença do que os homens. Os sintomas geralmente se manifestam após 10 a 30 anos.

Válvula mitral normal. 1 - cúspide posterior, 2 - cúspide anterior, 3 - músculo papilar anterolateral, 4 - músculo papilar posteromedial
Válvula mitral normal. 1 – cúspide posterior, 2 – cúspide anterior, 3 – músculo papilar anterolateral, 4 – músculo papilar posteromedial – Modelo 3D

Etiologia da EM

  • Doença cardíaca reumática é a principal causa de estenose mitral (cerca de 90% dos casos). Em países com medicina avançada, observa-se uma diminuição na incidência da estenose reumática.
Estenose mitral reumática
Estenose mitral reumática – Modelo 3D
  • Estenose degenerativa — é associada à calcificação do anel mitral. Esta é a segunda causa mais comum. A estenose degenerativa é muito comum em pacientes idosos.
  • Doença valvar cardíaca induzida por radiação – desenvolve-se 10 a 20 anos após a irradiação mediastinal; ela é causada pela fibrose e pelo espessamento das estruturas valvares.
  • Formas congênitas da estenose mitral são raras e geralmente aparecem na infância.
  • Doenças infiltrativas e sistêmicas (doença de Fabry, mucopolissacaridoses, doença cardíaca carcinoide, fibrose endomiocárdica, lúpus, etc.) são causas extremamente raras.

A verdadeira estenose deve ser diferenciada da obstrução do fluxo mitral de origem não valvar, que ocorre em casos de mixoma do átrio esquerdo, trombose, grandes vegetações infecciosas e degeneração de bioprótese mitral.

Patogênese

Alterações valvares e anatômicas.

  • Na doença cardíaca reumática, a inflamação crônica mediada pelo sistema imunológico leva à fibrose das cúspides, à fusão das comissuras e espessamento e ao encurtamento das cordas tendíneas. Isso resulta em um estreitamento central do orifício mitral com uma protuberância em das cúspides mitrais forma de cúpula. Com o tempo, o fluxo turbulento aumenta a calcificação e a rigidez valvar, agravando a estenose.
  • Na calcificação degenerativa do anel mitral, a fibrocalcificação se estende do anel até a base das cúspides, limitando sua mobilidade sem fusão típica das comissuras.
Estenose mitral degenerativa
Estenose mitral degenerativa – Modelo 3D

Distúrbios hemodinâmicos

  1. O estreitamento do orifício mitral causa um aumento no gradiente diastólico entre o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo.
  2. A sobrecarga crônica leva ao aumento da pressão no átrio esquerdo . À medida que a área valvar diminui, o enchimento do ventrículo esquerdo fica limitado e o débito cardíaco diminui.
  3. A sobrecarga de pressão prolongada causa a dilatação, a hipertrofia e a fibrose do átrio esquerdo, contribuindo para o desenvolvimento de fibrilação atrial e cria condições para a formação de trombos intra-atriais.
  4. O aumento da pressão no átrio esquerdo é transmitido às veias e aos capilares pulmonares, causando a hipertensão pulmonar pós-capilar e a remodelação vascular pulmonar.
  5. A progressão leva à sobrecarga do ventrículo direito, à insuficiência do ventrículo direito e à regurgitação tricúspide funcional.

Manifestações clínicas

  • Fase assintomática prolongada;
  • Falta de ar ao fazer esforço e, posteriormente, até em repouso. Com a progressão da doença, podem ocorrer a ortopneia e o engasgamento noturno.
  • Diminuição da tolerância ao exercício e fadiga estão associadas à limitação do débito cardíaco e à redução do enchimento diastólico do ventrículo esquerdo;
  • Fibrilação atrial pode ser o primeiro sinal clínico da doença. Na maioria das vezes, ela piora a hemodinâmica de forma abrupta devido à taquicardia e à perda da contribuição atrial para o enchimento ventricular;
Um exemplo de fibrilação atrial no ECG.
Um exemplo de fibrilação atrial no ECG.
  • Hemoptise — ocorre como resultado da hipertensão pulmonar e da ruptura das veias brônquicas;
  • Embolia sistêmica — ocorre devido ao alto risco de formação de trombos no átrio esquerdo;
  • Sinais de insuficiência ventricular direita — edema dos membros inferiores, ascite, etc.
  • Rouquidão (síndrome de Ortner) — ocorre devido à compressão do nervo recorrente pelo átrio esquerdo aumentado.

Diagnóstico da estenose mitral

Não existem marcadores laboratoriais específicos. O BNP / NT-proBNP é utilizado para avaliar a gravidade da insuficiência cardíaca.

  • Ecocardiografia transtorácica (ETT) é um método diagnóstico fundamental para a estenose mitral.
    • Avaliação morfológica: espessamento e fusão parcial das cúspides; encurtamento e fibrose do aparelho cordal; mobilidade limitada das cúspides, abaulamento em forma de cúpula da cúspide anterior durante a diástole; tamanho do átrio esquerdo, presença de trombos intra-atriais; condição do lado direito do coração.
    • Classificação pela área do orifício efetivo (≤ 1,0 cm2 — estenose grave com alto risco, ≤ 1,5 cm2 — estenose grave, > 1,5 cm2 — estenose não hemodinamicamente significativa).
    • Gradiente transmitral médio: em estenose grave maior que 10 mmHg. p.
    • Técnica Doppler — permite medir a velocidade do fluxo transmitral; calcular os gradientes de pico e médio; avaliar a pressão sistólica na artéria pulmonar utilizando o jato de regurgitação tricúspide; e identificar a regurgitação mitral concomitante.
  • Ecocardiografia com estresse (com exercício ou dobutamina) — é realizada se houver discrepância entre a gravidade dos sintomas e os dados da ETT em repouso. Esse exame permite avaliar o aumento do gradiente transmitral e a hipertensão pulmonar.
  • Ecocardiograma transesofágico (ETE)
    • Permite avalizar a morfologia das cúspides e das comissuras.
    • É realizado antes da comissurotomia mitral por cateter balão para excluir a presença de trombos no átrio esquerdo e no apêndice atrial, bem como para esclarecer o grau de regurgitação mitral após o procedimento.
    • O contraste ecocardiográfico espontâneo no átrio esquerdo é um marcador de congestão grave e de alto risco tromboembólico, frequentemente associado a uma pequena área do orifício mitral e um gradiente alto.
  • Angiotomografia é um procedimento útil quando é necessário avaliar a anatomia do tórax, a condição da aorta e dos vasos dos membros inferiores, bem como decidir sobre o tipo de abordagem cirúrgica no planejamento da cirurgia da válvula mitral.
  • Cateterismo invasivo é raramente utilizado, sendo indicado quando os dados não invasivos são inconsistentes.

Tratamento

Terapia medicamentosa

A terapia medicamentosa não resolve a obstrução, mas é utilizada para controlar os sintomas, estabilizar a hemodinâmica, monitorar as complicações e preparar o paciente para a cirurgia.

  • Diuréticos
    • Diuréticos de alça (furosemida) reduzem a congestão pulmonar e os sintomas de dispneia;
    • São eficazes no tratamento da hipertensão pulmonar e da insuficiência ventricular direita;
    • A diurese aumentada pode reduzir o débito cardíaco e aumentar a fadiga.
  • Monitorização da frequência cardíaca
    • Betabloqueadores são considerados fármacos de primeira linha. Eles prolongam a diástole e reduzem o gradiente transmitral;
    • Bloqueadores dos canais de cálcio não di-hidropiridínicos (verapamil, diltiazem) são uma alternativa caso os betabloqueadores sejam contraindicados;
    • Ivabradina pode ser usada em ritmo sinusal se houver intolerância a betabloqueadores. Reduz a frequência cardíaca sem efeito inotrópico negativo.
  • Digoxina pode ser usada em pacientes com FA, frequência cardíaca descontrolada ou disfunção sistólica concomitante.
  • Fibrilação atrial
    • A perda da contribuição atrial e a taquicardia na estenose mitral levam rapidamente ao edema pulmonar;
    • Em caso de instabilidade hemodinâmica, é necessário realizar a cardioversão elétrica.
  • Terapia anticoagulante
    • É indicada em pacientes com estenose mitral e FA, bem como em indivíduos com trombo no átrio esquerdo e/ou no apêndice atrial, ou com histórico de embolia, independentemente do ritmo;
    • Devido à falta de evidências suficientes sobre anticoagulantes orais, um antagonista da vitamina K (varfarina) com INR alvo entre 2,0 e 3,0 permanece o medicamento de escolha.

Tratamento endovascular (valvuloplastia percutânea mitral por cateter balão)

Valvuloplastia percutânea mitral por cateter balão é o tratamento de escolha para pacientes com estenose reumática mitral e anatomia valvar favorável.

Representação esquemática da valvuloplastia percutânea mitral por catéter balão
Representação esquemática da valvuloplastia percutânea mitral por catéter balão
  • Indicações
    • Estenose mitral grave sintomática (na maioria das vezes, de etiologia reumática);
    • Estenose grave assintomática na presença da hipertensão pulmonar (> 50 mmHg) e da fibrilação atrial;
    • Sem indicação para a cirurgia aberta;
    • Condições anatômicas favoráveis: cúspides móveis, calcificação mínima, lesões subvalvares limitadas, perfil morfológico favorável.
  • Contraindicações
    • Trombo no átrio esquerdo ou no apêndice atrial;
    • Insuficiência mitral moderada e grave;
    • Calcificação grave;
    • Valvuloplastia percutânea mitral por cateter balão prévia mal sucedida.
  • Técnica
    • O cateter balão é passado através do septo interatrial para o átrio esquerdo e inflado ao nível do orifício mitral, rompendo as comissuras fundidas.

Tratamento cirúrgico

  • Comissurotomia cirúrgica e reparo com preservação da válvula
    • É indicada para pacientes com anatomia desfavorável para valvuloplastia percutânea mitral por cateter balão, presença de trombo no átrio esquerdo ou lesões valvares associadas;
    • O procedimento envolve a dissecção da comissura, a correção das estruturas subvalvares e, se necessário, a anuloplastia.
  • Troca da válvula mitral
    • É indicada para casos de deformação valvular grave, calcificação grave, lesões valvares combinadas e estenose recorrente após intervenções repetidas;
    • Além da esternotomia mediana, em casos de anatomia e condições vasculares adequadas dos membros inferiores, a intervenção na válvula mitral pode ser realizada por meio de uma minitoracotomia direita com circulação extracorpórea realizada por veias femorais.
  • Próteses mecânicas são recomendadas para pacientes jovens e de meia-idade (até 60 anos) com expectativa de sobrevida prolongada. Elas requerem administração contínua de antagonistas da vitamina K. São menos indicadas para mulheres que querem engravidar.
  • Próteses biológicas são recomendadas para pacientes idosos (65 anos ou mais) e mulheres em idade reprodutiva. Elas têm vida útil limitada devido à degeneração estrutural e à potencial necessidade de nova intervenção.
Válvulas mecânicas (esquerda) e biológicas (direita)
Válvulas mecânicas (esquerda) e biológicas (direita)

FAQ

1. Qual é a principal causa da estenose mitral?

Na maioria dos casos, a estenose mitral é causada pela doença cardíaca reumática, que leva ao estreitamento progressivo do orifício mitral.

2. Quando a estenose mitral é considerada grave?

Quando a área valval é abaixo de 1,5 cm², especialmente em combinação com sintomas clínicos ou sinais de hipertensão pulmonar.

3. Por que os sintomas da estenose mitral se tornam mais graves com a taquicardia?

O aumento da frequência cardíaca reduz a diástole, aumenta o gradiente transmitral e eleva a pressão no átrio esquerdo e nas veias pulmonares.

4. Qual é o principal método diagnóstico para a estenose mitral?

O ecocardiograma transtorácico é o principal método de avalização da área valvar, dos gradientes de pressão e do grau de hipertensão pulmonar.

5. Em que casos é necessário realizar o
ecocardiograma transesofágico (ETE)?

O ETE é indicado para excluir a presença de trombos no átrio esquerdo e para esclarecer a anatomia da válvula antes da comissurotomia por cateter balão ou da cirurgia.

6. Como a estenose mitral grave sintomática é tratada?

O tratamento de escolha é a comissurotomia percutânea mitral por cateter balão quando a anatomia valvar é favorável. Se houver contraindicações, é recomendado optar pelo tratamento cirúrgico.

7. Quando a correção cirúrgica é preferível para a estenose mitral?

A cirurgia é indicada quando a anatomia da válvula é desfavorável, na presença da regurgitação mitral significativa ou do trombo no átrio esquerdo.

8. Como pacientes com estenose mitral e fibrilação atrial são tratados?

A base do tratamento é o controle da frequência ventricular e a anticoagulação obrigatória com antagonistas da vitamina K na estenose reumática mitral.

9. Por que os anticoagulantes orais diretos não são recomendados no tratamento da estenose reumática mitral?

Não existem evidências suficientes para comprovar a maior eficácia dos anticoagulantes orais diretos em relação aos antagonistas da vitamina K no tratamento da estenose mitral reumática.

10. Qual é o tipo de prótese valvar mais indicado para a troca da válvula mitral?

Pacientes com mais de 65 anos são recomendados optar pelas biopróteses. Para pacientes mais jovens, são preferíveis as próteses mecânicas, devido à necessidade de anticoagulação vitalícia.

Referências

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VOKA 3D Anatomy & Pathology – Complete Anatomy and Pathology 3D Atlas (VOKA 3D Anatomia e Patologia – Atlas 3D completo de anatomia e patologia) [Internet]. VOKA 3D Anatomy & Pathology [VOKA 3D Anatomia & Patologia].

Disponível em: https://catalog.voka.io/

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