2ª semana de desenvolvimento embrionário: estrutura, características morfogenéticas e significado clínico e anatômico

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O décimo quarto dia do desenvolvimento humano após a fecundação constitui uma das etapas mais significativas da embriogênese inicial. Nesse período, tem início a gastrulação, durante a qual, a partir do disco embrionário de duas camadas, são formados três folhetos embrionários: ectoderma, mesoderma e endoderma.

Trata-se de uma fase de transição entre a implantação e a gastrulação ativa. Nesta fase, tem início a interação entre o embrião e o organismo materno através das lacunas do sincitiotrofoblasto.

Ao mesmo tempo, são estabelecidos os eixos principais do corpo, que definem o plano de organização do futuro organismo:

  • craniocaudal;
  • dorsoventral;
  • esquerda-direita.

Paralelamente a esses processos, continua a formação das estruturas extraembrionárias, necessárias para o intercâmbio normal entre o embrião e o organismo materno.

Morfologia embrionária no dia 14

Nessa fase, o tamanho do disco embrionário é de cerca de 1,5 a 2 mm. Apesar de suas dimensões reduzidas, o disco mantém a estrutura de duas camadas, mas já está entrando ativamente na fase de reestruturação.

Epiblasto

A camada superior é constituída pelo epiblasto: células cilíndricas altas, com polaridade apical-basal acentuada e alta atividade mitótica. O epiblasto é uma fonte de todos os tecidos embrionários e, ao mesmo tempo, forma a parede da cavidade amniótica.

Suas células formam fortes contatos intercelulares devido à expressão de E-caderinas, mas na zona terminal caudal essas conexões enfraquecem gradualmente, o que prepara o epiblasto para a migração.

Hipoblasto

A camada inferior do disco embrionário é representada pelo hipoblasto, que consiste em células achatadas que formam uma placa fina. As células do hipoblasto não participam diretamente da formação dos tecidos embrionários, mas garantem o desenvolvimento do endoderma extraembrionário e a formação do saco vitelínico.

Além disso, elas secretam moléculas sinalizadoras –LEFTY1, Cer1 e DKK1, que inibem a expressão WNT e NODAL na região craniana, o que permite evitar o excesso de mesoderma e contribui para o desenvolvimento adequado das estruturas anteriores.

Formação da linha primitiva

Na extremidade caudal do disco forma-se a linha primitiva: um espessamento do epiblasto que constitui o primeiro sinal morfológico do início da gastrulação e define o eixo craniocaudal do embrião.

As células da linha perdem a polaridade apical-basal, reestruturam o citoesqueleto com a participação de Rho-GTP e adquirem a capacidade de migração.

Na parte craniana da linha surge um nó primitivo (nó de Hensen), que funciona como centro de organização. Suas células secretam NODAL, FGF8 eWNT3A, que ativam os processos de transição epitelial-mesenquimal, como resultado dos quais as células epiblasticas começam a se deslocar ativamente para o interior do disco.

Formação dos folhetos germinativos

A partir do 14º dia, verifica-se uma migração das células do epiblasto, que apresenta um caráter estritamente ordenado.

  1. A primeira série de células expulsa o hipoblasto e forma a endoderma definitiva, uma camada embrionária que dá origem ao epitélio do tubo digestivo e do sistema respiratório.
  2. As ondas seguintes formam o mesoderma, que se insere entre o epiblasto e o endoderma e, posteriormente, dará origem aos músculos, vasos sanguíneos, ossos, rins e coração.
  3. As células que permanecem na superfície formam o ectoderma, a partir do qual vão se desenvolver o sistema nervoso, órgãos sensoriais e epiderme.

Assim, é precisamente nessa fase que ocorre a diferenciação definitiva dos três folhetos embrionários: ectoderma, mesoderma e endoderma, o que constitui a base para a organogênese subsequente.

Formalização de eixos espaciais

Na região cranil do disco, forma-se a placa pré-cordal: um espessamento local de células mesodérmicas que serve como marcador precoce da membrana bucofaríngea e como importante referência para a extremidade cranial do embrião.

Paralelamente a esses processos morfogenéticos, estabelecem-se os eixos espaciais do embrião.

  • O eixo craniocaudal é determinado pela formação da linha primitiva e da placa pré-cordal;
  • O eixo dorso-ventral é definido pela distinção entre o epiblasto, localizado dorsalmente, e o hipoblasto, que ocupa a posição ventral;
  • A assimetria esquerda-direita é formada graças ao funcionamento do nó de Hensen: os cílios de suas células criam um fluxo direcionado de líquido, e a expressão local dos genesNODAL e LEFTY2 ativa o fator de transcrição PITX2 exclusivamente à esquerda, o que estabelece o programa de organogênese do lado esquerdo.

Segue abaixo um diagrama detalhado da estrutura:

Embrião no 14º dia de desenvolvimento (diagrama 3D com estruturas numeradas)
Embrião no 14º dia de desenvolvimento (diagrama 3D com estruturas numeradas)
Embrião no 14º dia de desenvolvimento
Embrião no 14º dia de desenvolvimento –Modelo 3D
  1. Âmnio (esfera azul):
    • É formado a partir do epiblasto;
    • Forma a cavidade amniótica, preenchida com líquido amniótico;
    • Função: proteger o embrião contra danos mecânicos e manter um ambiente estável.
Cavidade amniótica
Cavidade amniótica – Modelo 3D
  1. Saco vitelino (esfera amarela na parte inferior):
    • Derivado do hipoblasto;
    • Nessa fase, trata-se de um saco vitelino secundário;
    • Participa da hematopoiese primária e da formação inicial do sistema reprodutor.
Saco vitelino
Saco vitelino – Modelo 3D
  1. Disco embrionário (placa rosa-avermelhada)
    • Duas camadas: epiblasto (superior) e hipoblasto (inferior);
    • No 14º dia, tem seu início a gastrulação e a formação das três camadas germinativas.
Disco embrionário
Disco embrionárioModelo 3D
Epiblasto e hipoblasto
Epiblasto e hipoblastoModelo 3D
  1. Linha primitiva (linha vermelha):
    • Surge na extremidade caudal do disco embrionário;
    • Permite identificar o eixo “cabeça-cauda” do embrião (orientação craniocaudal);
    • As células do epiblasto migram através da linha primitiva, formando o mesoderma e o endoderma.
  2. Nó de Hensen (ponto vermelho escuro na extremidade anterior da linha):
    • Organizador do eixo embrionário;
    • Regula o movimento celular, a formação da notocorda e a simetria corporal.
  3. Migração celular (setas):
    • Setas verdes → Endoderme
      As células substituem o hipoblasto e formam a camada interna, que dá origem aos sistemas respiratório e digestivo.
    • Setas azuis → Mesoderme
      As células se localizam entre a ectoderme e a endoderme, dando origem aos músculos esqueléticos, ossos, tecido conjuntivo, vasos sanguíneos e rins.
    • Setas roxas → Ectoderme
      As células restantes no epiblasto formam a camada externa, a partir da qual se desenvolvem a pele e o sistema nervoso.
  4. Eixos (rótulos ao redor do diagrama):
    • Craniocaudal (cabeça ↔ cauda);
    • Esquerda-direita (futura simetria corporal);
    • Dorsoventral (costas ↔ abdômen).

Anexos embrionários

Nesta fase, o desenvolvimento do embrião está intimamente ligado à formação de anexos embrionários (estruturas extraembrionárias), que garantem sua nutrição, proteção e a formação da futura placenta.

Âmnio

O âmnio é formado a partir de células amnioblásticas que se originam do epiblasto. Essas células formam uma membrana fina que reveste a cavidade amniótica, localizada acima do epiblasto. A cavidade amniótica aumenta gradualmente, acumulando o líquido amniótico. Já nessa fase, o âmnio começa a desempenhar uma função protetora, criando um ambiente ideal para o desenvolvimento do embrião.

Saco vitelino

No 14º dia, o saco vitelino diminui de tamanho e passa a se chamar saco vitelino secundário (definitivo). Sua parede é revestida por células do hipoblasto e endoderma extraembrionário. Posteriormente, é justamente no saco vitelino que se formam os focos de hematopoiese primária e os embriões das células germinativas.

Apesar de o saco vitelino não participar da nutrição do embrião, ele é de grande importância como fonte de linhagens celulares e órgão hematopoiético temporário.

Córion

O córion é formado a partir de células do trofoblasto e do mesoderma extraembrionário adjacente. Nessa fase, ocorrem mudanças importantes no córion que determinam a futura formação da placenta. A implantação do trofoblasto no endométrio é acompanhada pela formação das vilosidades primárias, que são compostas por uma camada central de citotrofoblasto e por uma camada de sincitotrofoblasto que a recobre.

Na espessura do sincitotrofoblasto surgem lacunas, que são gradualmente preenchidas pelo sangue materno. Esse processo sinaliza o início do estabelecimento do metabolismo materno-embrionário primitivo: a primeira forma de circulação placentária.

Alantoide (marcador inicial)

Embora o alantoide comece a se formar um pouco mais tarde (por volta do 16º dia), já nessa fase, na parte caudal do disco embrionário se inicia a formação da região da sua origem. A alantoína desempenha um papel importante na formação dos vasos sanguíneos da placenta e no desenvolvimento da bexiga.

Estágios da embriogênese de Carnegie

Na embriologia, o desenvolvimento humano costuma ser descrito de acordo com os estágios de Carnegie (Carnegie stages). Trata-se de um sistema universal de classificação baseado em características morfológicas, e não em número de dias de desenvolvimento. No total, são classificadas 23 estágios, que abrangem o período desde a fecundação até o final da 8ª semana (56º dia).

Nesta fase, o embrião se encontra no estágio 6 de Carnegie. Em termos clínicos, trata-se do momento em que o embrião ainda não possui eixos corporais bem definidos (cabeça–cauda, costas–barriga), mas já estão se formando as principais estruturas extra-embrionárias que garantem seu crescimento posterior e sua implantação.

O evento crucial nesta fase é a criação das condições para a gastrulação, que terá início na próxima etapa. O estágio 6 de Carnegie é caracterizado por:

  • Idade do embrião: aproximadamente 13 a 15 dias após a fecundação;
  • Tamanho do embrião: cerca de 0,1-0,2 mm;
  • Descrição: trata-se do estágio do disco embrionário de duas camadas (disco embrionário bilaminar).

Os principais processos incluem:

  • O embrião é um disco plano, constituído por duas camadas celulares: o epiblasto e o hipoblasto;
  • Acima do epiblasto, forma-se a cavidade amniótica, revestida por amnioblastos;
  • Sob o hipoblasto, desenvolve-se a bolsa vitelina primária (e, posteriormente, a secundária).
    Entre o citotrofoblasto e o exocelomo, surge o mesoderma extraembrionário, no qual se forma em breve o espaço celômico extraembrionário;
  • Inicia-se a formação do córion com suas vilosidades primárias (citotrofoblasto e sincitotrofoblasto).
Disco embrionário com cavidade amniótica e saco vitelino
Disco embrionário com cavidade amniótica e saco vitelino – Modelo 3D

Evolução da embriogênese de Carnegie (estágios 5 a 7)

Estágio 5 (11º a 13º dia) Estágio 6 (13º a 15º dia) Estágio 7 (16º a 19º dia)
Nidação Saco vitelino secundário Linha primitiva e o nó de Hensen
Disco bilaminar Âmnio Início da gastrulação
Cavidade amniótica Córion com vilosidades primárias Processo notocordal
Saco vitelino primário Espaço celômico extraembrionário Formação dos três folhetos
Lacunas no sinciciotrofoblasto Preparação para a gastrulação Definição dos eixos do corpo

Regulação molecular da gastrulação e dos eixos

A formação da linha primitiva e a divisão do embrião em três folhetos germinativos são realizadas sob o controle de cascatas de sinalização complexas.

O papel fundamental do NODAL (família do TGF-β)

O principal regulador é o sistema NODAL, necessário para:

  • iniciação da migração de células do epiblasto;
  • indução do endoderma;
  • indução do mesoderma.

O resultado depende do nível de expressão:

  • alta expressão → formação do endoderma;
  • expressão reduzida → formação do mesoderma.

A atividade espacial de NODAL é estritamente controlada por seus antagonistas –LEFTY1, LEFTY2 e CER1, o que impede a formação excessiva do mesoderma.

A via de sinalização WNT e a interação com a BMP4

Proteínas WNT3 e WNT3A:

  • ativam a expressão NODAL;
  • intensificam os processos de mesodermogênese.

Interação de WNT com BMP4:

  • estimula a formação da linha primitiva;
  • promove o desenvolvimento do mesoderma lateral.

No entanto, é necessário um equilíbrio rigoroso:

  • BMP4 estimula o mesoderma;
  • seus inibidores (CHORDIN, NOGGIN, FOLLISTATIN) limitam a atividade na região dorsal;
  • isso garante a formação do mesoderma axial e da futura notocorda.

Regulação da migração celular: o papel do FGF8

Proteína FGF8, secretada por células da linha primitiva:

  • regula a migração das células do epiblasto;
  • inibe a expressão da E-caderina;
  • reduz a adesão intercelular;
  • desencadeia a transição epitélio-mesenquimal.

Como resultado, as células do epiblasto adquirem a capacidade de se deslocar para o interior do embrião.

Simultaneamente, formam-se os eixos do embrião.

  • O eixo craniocaudal é formado devido à expressão dos inibidores de WNT e BMP (CER1, DKK1, LEFTY1) na região cefálica, o que impede a mesodérmica excessiva e permite o desenvolvimento das estruturas da cabeça;
  • O eixo dorsoventral é determinado pelos gradientes de BMP e seus antagonistas (CHORDIN, NOGGIN, FOLLISTATIN). A alta concentração de BMP forma estruturas ventrais, e sua supressão na região dorsal forma estruturas dorsais;
  • A assimetria esquerda-direita inicia-se na região do nó de Hensen. Aqui são expressos NODAL e LEFTY2, que ativam o fator de transcrição PITX2 apenas no lado esquerdo do embrião. É um mecanismo essencial que determina o posicionamento correto do coração, estômago e outros órgãos assimétricos.

Os fatores de transcrição também participam desses processos.

  • BRACHYURY (T) é necessário para a formação da mesoderma, especialmente da mesoderma axial (cordomesoderma);
  • GOOSECOID é expresso no nó e regula a migração celular, auxiliando na formação de estruturas cranianas;
  • OTX2, LIM1 e HESX1 são fatores-chave no desenvolvimento do prosencéfalo e da cabeça;
  • Os genes HOX conferem identidade segmentar ao mesoderma ao longo do eixo craniocaudal, o que determina a localização dos futuros somitos e órgãos internos.

Ao mesmo tempo, o desenvolvimento de estruturas extraembrionárias continua. O sinciciotrofoblasto secreta gonadotrofina coriônica humana (hCG, codificada pela família de genes CGB), que mantém a função do corpo lúteo e garante a secreção de progesterona.

Para a implantação e o desenvolvimento bem-sucedidos da placenta, são necessárias metaloproteinases (MMP2 e MMP9), que destroem a matriz intercelular do endométrio e garantem a invasão do trofoblasto. Os fatores VEGF e PGF estimulam o crescimento da rede vascular coriônica, criando condições para a troca materno-embrionária.

Finalmente, a expressão de HLA-G garante a tolerância imunológica materna, bloqueando a destruição do trofoblasto pelas células NK e prevenindo o conflito imunológico.

Assim, o desenvolvimento nesta fase pode ser representado como a interação de dois sistemas:

  • Os sinais embrionários (NODAL, WNT, BMP, FGF e seus antagonistas) determinam a organização espaço-temporal da gastrulação e a formação dos eixos;

Os sinais extraembrionários (CGB, MMP, VEGF, HLA-G) fornecem nutrição, invasão e proteção imunológica ao embrião.

FAQ

1. É possível ver o embrião na 2ª semana por meio de uma ultrassonografia?

Na segunda semana de desenvolvimento embrionário (o que corresponde a 4 semanas obstétricas de gravidez), ainda não é possível visualizar o próprio embrião por meio de ultrassom, uma vez que suas dimensões são de apenas cerca de um milímetro e meio. No entanto, os modernos equipamentos de ultrassom transvaginal já são capazes de detectar um óvulo fecundado firmemente aderido à cavidade uterina, que aparece na tela do monitor como uma pequena formação anecoica (escura) com um diâmetro de cerca de 2 a 3 milímetros.

2. Onde se localiza o embrião durante a segunda semana de desenvolvimento?

No final do décimo quarto dia do período pós-concepcional, o embrião já está totalmente imerso na espessura do endométrio, a camada funcional da mucosa uterina. Nesta fase, o processo de implantação fica concluído, e a camada externa de células (trofoblasto) se integra ativamente aos tecidos maternos, formando as vilosidades primárias do córion e as lacunas, que são preenchidas com sangue materno para garantir o intercâmbio placentário primitivo.

3. Qual é o tamanho exato do embrião no 14º dia?

No 14º dia da embriogênese (correspondente ao estágio 6 de Carnegie), o disco embrionário mede apenas de 1,5 a 2 milímetros de comprimento, e o próprio embrião tem a aparência de uma minúscula lâmina plana de duas camadas. Apesar de seu tamanho microscópico, nesse disco celular já estão ocorrendo processos morfogenéticos extremamente complexos, com a formação da cavidade amniótica e do saco vitelino secundário, que, mais tarde, garantirão o desenvolvimento de todos os sistemas do organismo.

4. Quais são os sintomas que uma mulher apresenta na segunda semana de embriogênese?

Nesse período, que coincide com o início do atraso da menstruação, a mulher pode sentir os primeiros sinais de gravidez, decorrentes do aumento do nível da gonadotrofina coriônica humana (hCG). Entre os sintomas mais típicos estão aumento da sonolência, sensibilidade ou inchaço das mamas, sensação de puxão na parte inferior do abdômen, bem como corrimento escasso e esmaecido, associado ao processo de implantação do trofoblasto na parede uterina excessivamente vascularizada.

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